terça-feira, 14 de dezembro de 2010

A mulher da Grécia Antiga e possíveis aspectos da cultura grega na contemporaneidade


A condição social e política da mulher da Grécia antiga se diferem largamente dos direitos conferidos aos homens de tal sociedade. Elas não eram consideradas cidadãs e, do mesmo modo, ocupavam uma posição de inferioridade social em relação aos indivíduos do sexo masculino. Destarte, tal relação de desigualdade corroboraria por atribuir às mulheres atividades direcionadas, em geral, às tarefas domiciliares e à procriação, isto é, o ambiente “natural” delas estava circunscrito ao lar, educando e gerando os filhos de seus maridos, sendo que, assim, elas deveriam ser subservientes aos seus cônjuges e lhe prestar total fidelidade. 

Aliás, o status social da antiga mulher grega era condicionado pelo meio cultural e econômico em que ela estava inserida. Um exemplo disso são as mulheres de Esparta, que desfrutavam de maiores “regalias” em comparação às atenienses, visto que eram proporcionado às espartanas, por ensejos políticos, uma maior liberdade para a prática de atividades físicas e, também, para o gerenciamento das terras de seus maridos, isso enquanto na ausência deles.

Embora fosse comum dedicarem-se mais ao aprendizado de serviços domésticos e manuais do que à erudição, as mulheres de origem aristocrática aprendiam a ler (SILVA, 2012, p.102). Já no casamento, as atenienses, por exemplo, eram proibidas de conviver com outros homens que não fossem seus parentes. Ademais, sendo principalmente pautado na idéia de aliança entre famílias, o matrimônio na Grécia antiga era decidido e arranjado pelos pais das mulheres, as quais se casavam cedo, em sua puberdade.

No entanto, na classe social mais baixa, a mulher usufruía de uma maior autonomia do que a da aristocracia em termos econômicos e sociais, uma vez que devido à sua condição financeira precária ela necessitava trabalhar, o que lhe permitia gerenciar o seu próprio dinheiro. Nesta camada social a prostituição feminina era comum, onde nela podemos encontrar, entre outras categorias de prostitutas, as pornais e as cortesãs.

Essa concepção de inferioridade da mulher em relação ao homem teve como respaldo grandes pensadores da época, como o filósofo Aristóteles. Segundo ele, no que diz respeito à sexualidade dos indivíduos a diferença é indelével, pois, independente da idade da mulher, o homem sempre deverá conservar a sua superioridade (1998, p. 33). Tal percepção do filósofo se embasou na noção de “ordem natural”, quer dizer, ele hierarquizou a natureza da alma metafisicamente, colocando o homem livre num plano superior ao da mulher que sofreria de uma carência e maturidade de espírito, sendo ela, portanto, incapaz de exercer qualquer outra função que não fosse a de obedecer ao seu marido, este o qual seria responsável por governar a família.

Aristóteles proferiu severas críticas, sobretudo, à autonomia que tinham as mulheres espartanas em relação às atenienses. O Estagirita não aceitara, de modo algum, que as espartanas fossem educadas similarmente aos homens, mesmo que fosse sob o pretexto de ter mulheres com melhores aptidões e atributos físicos pra gerar filhos, uma conjectura que se concebia em Esparta.

Um pensador que teve uma concepção parecida à de Aristóteles e que influenciou fortemente a filosofia deste foi Demócrito (460 a.C. – 370 a. C.). Em alguns de seus fragmentos, Demócrito, também associando a mulher à natureza, reduziu a função dela à satisfação sexual masculina, qualificando-a como uma mera fonte de prazer carnal (CARTLEDGE, 2000, p. 18). Ainda que a concepção de Demócrito acerca das mulheres espartanas não fosse bem definida, ele precipitou a idéia de ginocracia (governo destinado por natureza ao homem exercido pela mulher); uma noção que seria utilizada, posteriormente, inúmeras vezes por Aristóteles para condenar a política e as mulheres de Esparta.

Todavia, cabe fazer aqui uma pequena ressalva: reduzir a filosofia destes dois grandes pensadores a um simples comportamento machista seria um grande equívoco, um anacronismo, tendo vista que a estrutura social de tal período histórico era determinada pela “natureza”. Logo, o erro que cometera Aristóteles e Demócrito ao inferiorizar a mulher em relação ao homem, talvez, deva-se mais a um fator de “visão de mundo”, subjacente à época, do que um ato propriamente pré-conceituoso.

Já no contexto atual e partindo do pressuposto de que ao longo da história a mulher recebeu uma autonomia substancial relativa ao trabalho, à organização política e social, à estrutura familiar e em diversas áreas no que se refere à ética e a moral que concebemos hoje, percebe-se que ela transcendeu de fato a condição de uma simples incubadora humana e criada para exercer uma função mais ativa na sociedade a qual vivemos. Assim, a mulher contemporânea contrapõe-se, em vários aspectos, à mulher idealizada na Grécia antiga, que era subjugada por sua incapacidade intelectual, física e de “não-virtuosidade” em comparação aos homens deste período histórico. 

Além dessa perspectiva, poder-se-ia notar que tal concepção grega de inferioridade feminina herdada por nós manifesta-se hoje, dentre outras formas, por meio de ideologias. Se para os gregos antigos e, igualmente, para Aristóteles o homem estava num nível de perfeição superior ao da mulher devido a sua maior capacidade intelectual, física e, deste modo, “espiritual”, nas sociedades modernas há tendências ou, melhor dizendo, sintomas decorrentes de tal concepção: a inversão de valores e/ou a ideologia feminina. 

Encontramos, não raro, tal ideologia e inversão de valores atrelados ao senso comum. Se, por um lado, sob a visão machista que herdamos de outrora, como nos lembra Marilena Chauí (2000, p. 222), o “ser feminino”, a mulher, se apresenta como um ser frágil, intuitivo, sensível e, então, seria por natureza designada à maternidade e às atividades domésticas, sendo que assim ela deveria permanecer sob os cuidados de seu marido e de sua família, exercendo o “papel da mulher”; por outro, o próprio senso comum propõe, ainda, ideologicamente a inversão de valores ou a troca de papéis. Podemos encontrar uma ilustração que nos remete a essa idéia em frases como: “por detrás de um grande homem há sempre uma mulher”. Outro fator significativo na troca de papeis são as concepções errôneas acerca da superioridade da mulher em relação ao homem, seja pela sua “maior capacidade intelectual”, pela sua “forte determinação e ‘garra’”, ou até mesmo pelas “tarefas que só elas sabem fazer”. 

Historicamente, esses “sintomas ideológicos” devem-se ao fato de que as mulheres conviveram em sociedades as quais eram, em geral, dominadas pelos homens. Como as divisões sociais destas civilizações davam-se de acordo com a “ordem natural” de cada indivíduo, as mulheres eram designadas prioritariamente à função materna, distanciando, assim, do trabalho braçal e intelectual exercido pelo homem. Esse sistema social e relação de poder colocaram a mulher num lugar subordinado, como uma simples auxiliar do chefe da família. Contudo, sabe-se que atualmente essa situação mudou. A estrutura política e social se modificou e, naturalmente, ainda está se modificando. Não obstante, tais ideologias ainda persistem.


Texto: Daniel Frias.
Graduando em Licenciatura Plena em História pela CEUCLAR.

Bibliografia.

ARISTÓTELES. A Política. [tradução de Roberto Leal Ferreira]. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
CARTLEDGE. Paul. Demócrito: Demócrito e a Política Atomista. [tradução de Angélica Elisabeth Köhnke]. São Paulo: Editora UNESP, 2000.
CHAUI. Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Editora Ática, 2000.
SILVA, Semíramis Corsi. História Antiga I. (CRC – CEUCLAR – Batatais, SP). 2010.

10 comentários:

  1. Eu sou estudante de Letras (Grego) e pesquiso justamente a mulher da Grécia Antiga... Gostei do artigo... bem legal!!!

    ResponderExcluir
  2. Oi, Luciana...
    Fico feliz que tenha gostado do artigo. Seja bem-vinda ao blog e, quando quiser, sinta-se a vontade para postar novos comentários.
    Um abraço!

    ResponderExcluir
  3. Oi Daniel, adorei o seu blog.
    Me identifiquei bastante pois desde sempre sou apaixonada por História, seu ponto de vista é surpreendente.
    Passar bem!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, “Sobre o que eu sinto”! rs
      Muito obrigado pela consideração. Seja bem-vinda ao blog.
      Abraços!

      Excluir
  4. Posso sugerir seu comentário sobre o papel da mulher na Grécia Antiga, aos meus alunos (Ensino Médio) para ajudá-los na análise da música Mulheres de Atenas?
    Muito obrigado!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, Alcides. Certamente que sim. Essa é a proposta do Blog, compartilhar ideias. Abraços!

      Excluir
  5. Será que "a mulher RECEBEU autonomia"? É possível receber autonomia?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, Bianca...
      Levando em consideração que em determinadas circunstâncias histórico-culturais a mulher tem a sua liberdade (se compararmos com a realidade atual de algumas sociedades) reduzida, é possível, sim, afirmar que ela recebeu “autonomia” (expansão de direitos) da sociedade em que ela encontrava-se inserida, ou seja, “recebeu” um aval social para exercer sua liberdade. Não há problemas em utilizar o termo “a mulher recebeu autonomia” deste que este mesmo termo esteja contextualizado.
      Abraços.

      Excluir
  6. Muito bom! gostei muito da materia... parabens pelo Blog Daniel

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, Patrícia...
      Muito obrigado. Seja bem-vinda ao Blog!
      Um forte abraço.

      Excluir